Os filmes antigos

O filósofo Julián Marías em sua biblioteca em Madrid.

A televisão e o vídeo estão alterando profundamente a significação do cinema. Até há poucos anos, não se podia ver um filme senão quando havia uma projeção pública. O mais comum era que [fosse uma projeção] de filmes recentes, por ocasião de sua estreia, ou enquanto ainda conservavam sua atualidade; de vez em quando, com alguns ilustres e famosos, havia “reexibições” ou reestreias, que permitiam revisões ou, para aqueles que ainda não tivessem assistido a certos filmes, a oportunidade de vê-los pela primeira vez. Os amantes do cinema viviam com uma perpétua nostalgia dos filmes que guardavam tenazmente na memória, até que o passar do tempo os ia debilitando, apagando-os aos poucos, confundindo suas tramas. Seria interessante ver o que restava de cada caso, o que se salvava do naufrágio temporal.

Hoje a televisão exibe filmes antigos com frequência. Às vezes, até mesmo séries inteiras de um gênero, de um diretor, de um ator ou de uma atriz. O vídeo deixa um espaço para a seleção individual: permite o equivalente à releitura, algo que a biblioteca sempre tornou possível. É certo que [neste meio] se perdem muitas coisas, começando pela própria experiência de ir ao cinema, que é algo em si encantador e atrativo. Em segundo lugar, a tela pequena é um substituto deficiente da grande tela do cinema, na qual se “entra”, e que exerce uma maravilhosa atração sobre o espectador. Como se isso não bastasse, a televisão interrompe várias vezes — muitas vezes — a projeção para intercalar longos blocos de publicidade; com isso, a ilusão se quebra, o espectador “sai” da história, do mundo mágico do cinema, e é preciso recompor a duras penas a atenção, a atitude adequada, a imersão no mundo fictício. Às vezes, o espectador menos experiente fica surpreso quando vai ao cinema e percebe que o filme continua em sua integridade, sem mutilações ou interrupções.

Apesar de todos esses inconvenientes, um fato indiscutível é a viva ilusão que os filmes antigos suscitam nos espectadores. Eu ia dizer: “quanto mais antigos, melhor”, mas não é verdade. Os filmes demasiado antigos se afastam da sensibilidade média, sobretudo por razões técnicas, e apenas os verdadeiros amantes do cinema — e aqueles que têm algum interesse pela história — desfrutam plenamente deles. Mas desde 1930, e talvez um pouco antes, o cinema teve seu auge, que persistiu até 1960 e por alguns posteriores. Já os filmes produzidos nos últimos vinte anos são muito menos prazerosos.

Este é o principal motivo pelo qual hoje se vai ao cinema muito menos do que há algumas décadas. Costuma-se pensar em outros fatores: a “insegurança” das ruas, sobretudo à noite; a dificuldade de deslocamento, de estacionar o carro se se vai com ele, o custo do táxi, o alto preço do cinema. Tudo isso pode ser verdade, mas é muito secundário. Vai-se a muitos lugares sem preocupação, sem que importe demasiado o gasto; investem-se quantias incomparavelmente maiores em espetáculos esportivos, musicais, para não falarmos das diversas formas de jogo.

Não é que os diretores de cinema atuais não saibam fazer filmes como os de meio século atrás; é que não querem, não se atrevem, não gostam.”

O que acontece é que o cinema atual raramente compensa; na maioria dos casos, o espectador volta [para casa] com uma dose de decepção. Quando decidimos ir ao cinema e consultamos a programação, ela quase sempre é pouquíssimo atraente — quando não é explicitamente repulsiva; às vezes, depois de revisarmos tal programação duas ou três vezes, decidimos ficar em casa, com um livro, ou diante da televisão. E, se esta promete um filme antigo, daí nem hesitamos.

É possível dizer que o que se oferece na televisão é uma seleção dos melhores filmes do passado, daqueles que sobreviveram. Em alguma medida é isso que acontece, mas, quando repassamos o número de filmes [antigos] que mantiveram a sua capacidade de interesse com o tempo, chegamos à conclusão de que o nível médio era incomparavelmente mais alto. Não é estranho? Os filmes atuais dispõem de recursos muito superiores aos de antes — seja em termos técnicos ou financeiros. Os filmes de trinta, quarenta, cinquenta anos atrás quase sempre eram simples, elementares, baratos; os de Cecil B. DeMille e produções como E o vento levou eram exceções. Pensemos nos filmes de Charlie Chaplin; nas séries de comédia produzidas desde o início do cinema sonoro até meados do século, os filmes policiais da mesma época, tudo isso era realizado com recursos escassos.

Algo decisivo eram os atores e atrizes. Será que os mais recentes não são bons? Depende do que se entenda por “bons”. Muitos são “bons atores”, no sentido de que conhecem bem o seu ofício e o exercem com excelência; mas antes se pedia algo mais: que fosse agradável vê-los. Não se tratava tanto de dar uma nota a seu trabalho; o essencial era que sua presença produzisse prazer. Ia-se ver um filme de certos atores porque seus nomes prometiam uma hora e meia de alumbramento. Mais tarde, essa predominância do ator passou a se chamar, de modo meio desdenhoso, de star system, e a figura predominante deixou de ser o ator e passou a ser o diretor.

[…] A partir de uma determinada época surgiu a ideia de que não era inconveniente que os atores fossem antipáticos; mais ainda, a antipatia passou a ser considerada um mérito; como a beleza e o asseio começaram a parecer algo desprezível, o glamour que tinha sido um atrativo do cinema desapareceu, e começou-se a preferir o desalinho e certo “miserabilismo” cuidadosamente cultivado. Faltava um detalhe: a invasão das palavras grosseiras, aquelas que nunca se liam, que não se ouviam em público e mal em privado, salvo nos círculos que a maioria dos espectadores do cinema não frequentava.

A consequência disso é que antes abundava, e agora escasseia, isso que costumamos chamar de talento. É uma convicção que se impõe quando consideramos quase todas as atividades do pensamento, da literatura, da arte. Se buscarmos pelos nomes de artistas verdadeiramente ilustres e criativos aparecidos nas últimas décadas, em diversos países, na maioria das disciplinas, a colheita é de volume muito reduzido. Até nas nações que durante séculos não conheceram a decadência, as exceções à mediocridade são inquietantemente raras.

Mas convém definirmos o que entendemos por talento. Não se trata de dons inatos; seria inverossímil tal espécie de decadência genética. Por que razão seriam inferiores psicofisicamente os homens destes últimos decênios aos nascidos nos primeiros do século ou nos últimos do XIX? O talento não consiste nos dons, mas no que se faz com eles. […] O que ocorre é que a vida humana, em cada sociedade, é mais ou menos ampla: ou ela é expandida ou é limitada, ou a imaginação é favorecida ou reprimida; ou buscamos o [que é] melhor ou o evitamos.

Não é que os diretores de cinema atuais não saibam fazer filmes como os de meio século atrás; é que não querem, não se atrevem, não gostam; não se propõem a fazer bom cinema, mas outras coisas — diversas coisas, que se poderiam identificar e catalogar. A prova é que, de vez em quando, algum diretor, alguns atores, fazem um excelente filme, que nos devolve o gosto pelo cinema. Simplesmente porque se atreveram a ser inteligentes.


Julián Marías é um dos grandes filósofos do século XX, integrante do grupo que ele mesmo denominou como “escola de Madrid”, cujo pensamento foi fortemente influenciado por pensadores como Ortega y Gasset e Miguel de Unamuno. O cinema foi um assunto recorrente nos estudos de Marías. Uma curiosidade interessante: Miguel Marías, filho de Julián, é um dos maiores críticos de cinema do século XX e um dos grandes que ainda estão vivos.