A ficção irrefutável: “Era uma vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino

A atriz Margot Robbie em cena do filme "Era uma vez em Hollywood", de Quentin Tarantino

“Esta é a função epistemológica dos enunciados ficcionais: podem ser usados como o azul de tornassol para indicar a irrefutabilidade das verdades”.

Umberto Eco 1 “Alguns comentários sobre os personagens de ficção”. In: Confissões de um jovem romancista. Trad. Marcelo Pen. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 86.

À altura da produção de Era uma vez em… Hollywood [2019], não era a primeira vez que Tarantino apresentava uma história “baseada em fatos reais” que modificava completamente os acontecimentos históricos retratados. Ele já havia feito isso em outros filmes — como Bastardos Inglórios e Django Livre.

A grande diferença é que Era uma vez em… Hollywood é um dos filmes formalmente mais maduros do cineasta, um filme cuja realização se aproxima dos melhores momentos da sua filmografia — penso, especificamente, em Jackie Brown e em À prova de morte. Ao contrário do que acontece em filmes como Kill Bill, e os citados Django Livre e Bastardos Inglórios, em Era uma vez em… Hollywood há um equilíbrio de registros que impede o filme de se tornar excessivamente caricato.

O conjunto de referências e obsessões do diretor, que quase sempre servira unicamente à caracterização estilística, serve aqui a um propósito pedagógico: ensinar ao público o verdadeiro poder da ficção — ou, como diria o escritor peruano Mário Vargas Llosa, “a verdade das mentiras”.

De fato, Era uma vez em… Hollywood é um filme singular dentro da obra de Tarantino. Em seu clímax, há uma hipérbole “tarantinesca”, porém suas mais de duas horas apresentam um ritmo contido, uma observação cadenciada do seu próprio universo de ficção. Pelo viés metalinguístico do próprio filme, podemos dizer que essa característica demonstra, mais uma vez, o amor do cineasta pela arte de contar histórias, as quais não consistem apenas em ação frenética e em momentos de violência, mas em bons diálogos e outros momentos triviais, divertidos e, às vezes, um pouco melancólicos. Ou seja: é uma arte elaborada a partir da verdadeira matéria da vida, que é essencialmente cotidiana.

Era uma vez… o cotidiano

Sharon Tate (Margot Robbie) compra uma edição rara de Tess of the d’Urbervilles para presentear seu marido, Roman Polanski (sugerindo, talvez, que foi então que o diretor polonês teve a ideia para produzir a sua adaptação do livro de Thomas Hardy); Polanski (Rafal Zawierucha) toma café no jardim de sua casa e brinca com a sua cachorrinha; o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) conserta a antena de TV do seu “chefe”, o astro Rick Dalton (Leonardo DiCaprio); Rick, por sua vez, ensaia as falas que precisa decorar para as filmagens do dia seguinte. Para quem esperava um filme sangrento baseado nos episódios protagonizados pela família Manson, tais cenas quebram completamente as expectativas. A ação mais frenética quase fica circunscrita às produções cinematográficas que existem dentro da própria narrativa (são episódios que duram segundos, mas que não deixam de ser notáveis, pois demandam um grande número de profissionais e um alto nível de esforço para sua realização).

Brad Pitt em cena do filme "Era uma vez em Hollywood", de Quentin Tarantino - A arte do cinema
Leonardo di Caprio em cena do filme "Era uma vez em Hollywood", de Quentin Tarantino
Margot Robbie em cena do filme "Era uma vez em Hollywood", de Quentin Tarantino
Os momentos triviais de Era uma vez em… Hollywood

Em Era uma vez em… Hollywood, a lógica narrativa de Tarantino segue o princípio de que “a cena é mais importante do que o enredo”. Por isso, deve-se ter em mente que, na construção do seu universo fictício, há um elemento muito sutil, que remonta à modernização da narrativa operada pelo escritor Gustave Flaubert: o “detalhe estudadamente irrelevante”, tal como o denominou James Wood:

admitimos que não existe detalhe irrelevante na literatura, nem mesmo no realismo, que costuma usar os detalhes como uma espécie de recheio, para que a verossimilhança pareça simpática e acolhedora. Deixamos as luzes de casa ou do quarto de hotel acesas à toa quando não estamos, não para provar que existimos, mas porque a própria margem de excedente parece vida; parece, de um jeito curioso, com estar vivo. 2 Wood, James. Como funciona a ficção. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 80.

Na literatura, esse “detalhe estudadamente irrelevante” é realçado pelos diferentes tipos de narrador; no cinema, como o espectador tem um campo de visão mais abrangente, é necessária uma atenção mais detida para que esse tipo de detalhe seja percebido. Em Era uma vez em… Hollywood, tais detalhes não aparecem apenas sob a forma de elementos do cenário (“como recheio”), mas também sob a forma de pequenos gestos: Tate posando para a foto ao lado do cartaz de seu próprio filme, ou observando a reação das pessoas que estão lhe assistindo; Boof desafiando a um prepotente Bruce Lee ou alimentando à sua pitbull segundo um código de conduta bem estabelecido (o qual será de importância literalmente vital para a narrativa); Dalton ficando furioso por ter errado as suas falas durante a gravação; Arabella revelando o seu método de atuação, etc.. Todos esses momentos fazem parte da “margem de excedente que parece vida”, ou ainda, nas palavras de Wood:

“É o tipo de detalhe que acelera nosso conhecimento de um personagem: um estado de espírito, um gesto, uma palavra avulsa. Faz parte da compreensão humana e moral — o detalhe não como estidade, mas como conhecimento.3 Wood, p. 81

Eis aí uma das grandes qualidades de Tarantino (não tão evidente nas cenas de violência, mas bastante explícita nos momentos de diálogo “desinteressado” dos já citados Jackie Brown e À prova de morte): o amor por suas personagens, e não apenas no sentido de conferir-lhes sempre um destino agradável, mas no sentido de que, uma vez saídas da sua imaginação, elas se transformam em algo dotado de valor, num “índice de compreensão humana e moral”.

A “corda da ficção”

Para além desses detalhes, há algumas sequências do filme em que Tarantino demonstra o seu domínio completo da ficção cinematográfica. E não de um modo meramente caricato — como em Bastardos Inglórios —, mas com um acúmulo de tensão que, ainda que muitas vezes seja resolvido de modo cômico ou anticlimático, faz com que o espectador mantenha-se ativamente compenetrado no desenrolar da trama. Em Era uma vez em… Hollywood, o momento mais paradigmático deste domínio é quando Cliff Booth visita o Rancho Spahn, reduto da família Manson.

Brad Pitt e Margaret Qualley em cena do filme "Era uma vez em Hollywood", de Quentin Tarantino
Brad Pitt e Margaret Qualley em cena do filme "Era uma vez em Hollywood", de Quentin Tarantino

É uma sequência que dura mais de vinte minutos — ocupando um espaço considerável dentro do enredo —, na qual Tarantino emprega o seu conceito de “estender a corda da ficção”: ele cria vários pontos de tensão que vão se expandindo de modo gradativo, fazendo com que fiquemos imersos na situação que estamos testemunhando.

Além disso, essa sequência também tem um papel importante na caracterização das personagens principais, pois ela constrói um paralelo entre Dalton e Booth: enquanto Dalton está no set de filmagem, “fingindo” ser um cowboy, Booth está se deparando com um perigo real, pois o Rancho Spahn ficaria marcado como um dos símbolos mais nefastos da história americana.

Não é só a fidelidade da reprodução do local e das próprias personagens históricas que cria a tensão do momento, mas a eminência da situação inapelavelmente antecipada pelo espectador, o qual, no entanto, não está esperando pela catarse redentora que virá no final da narrativa — e por isso não sabe que terá suas expectativas (positivamente) frustradas. Aí, quando interpretada de modo simbólico, essa catarse final pode ser vista como uma crítica ao caos ideológico que possibilitou o surgimento da “família” Manson e, pior ainda, a transformação de seu líder em emblema revolucionário.

A catarse da tragédia americana

O foco da trama de Era uma vez em… Hollywood não está necessariamente na família Manson nem nos assassinatos Tate-Labianca. As personagens centrais da trama são Rick Dalton e Cliff Booth. E este é um dos grandes trunfos do filme.

Embora o “compasso moral” de Tarantino seja muito diferente do meu — pois, esquecendo-se do saldo de niilismo e das gravíssimas consequências sociais originadas pelo ideário quase hegemônico da “geração arruinada pelo L.S.D.” (tal como a definiu a Camille Paglia), ele alegadamente pretendeu retratar a década de 60 como “o símbolo máximo da liberdade americana” —, a catarse final de Era uma vem em… Hollywood é um dos momentos mais singelos do cinema da década de 2010.

Em uma entrevista, Tarantino disse que guardou as imagens finais do filme por mais de vinte anos em sua imaginação — e que conseguiu executar tais imagens exatamente da maneira como as havia imaginado. Assim, ao lançar mão da ucronia — a reinvenção fictícia e explicitamente visível de um acontecimento histórico — ele quis “redimir” a história americana de um de seus episódios mais sombrios.

Na última cena do filme, Rick Dalton passa pelos portões da “outra dimensão” da história humana.

Mas, além disso, sua reinvenção histórica também tem um apelo mais universal. Seu exercício de imaginação propõe uma espécie de salvação pela arte, pois é só por meio da ficção que podemos imaginar todas as dimensões possíveis da realidade. À época do lançamento do filme, o filósofo David Bentley Hart publicou um artigo no qual dizia que, com Era uma vez em… Hollywood, pela primeira vez em sua filmografia Tarantino expressava o que o filósofo chamou de “justiça cósmica”. Há dois trechos do artigo de Hart que merecem ser reproduzidos:

O grande “golpe de mestre” de Era Uma Vez em… Hollywood acontece bem no final, após o belo e brutal desfecho, quando ouvimos a voz de Sharon Tate novamente — não de modo direto, mas como uma voz desencarnada, vinda do interfone localizado no portão de sua casa. É um lembrete extraordinariamente comovente de que ela está falando a partir daquela realidade alternativa, aquele paraíso terrestre onde o mal não conseguiu entrar, aquele outro mundo onde os males do tempo são todos desfeitos. E então o portão se abre, e ao protagonista do filme é permitido entrar nesse — na falta de uma palavra melhor — paraíso. Mesmo assim, a última visão que o espectador tem de Tate é por trás e de cima, ou com o rosto dela voltado para baixo — porque, afinal, ela está lá, e não aqui.

Para mim, parece óbvio que a sanidade moral exige esse outro mundo. Se ele é real, se ele existe em algum lugar e de alguma forma (e eu sou um dos “tolos” que quer acreditar que ele existe), então ele também é a única versão deste mundo que vale a pena amar de modo incondicional e a única forma de existência pela qual vale a pena lutar aqui, em nosso mundo concreto, seja por meio de pequenos atos de bondade ou por meio de projetos heroicos de justiça social. E mesmo que esse mundo não exista, ainda assim vale a pena imaginá-lo, já que a sua alternativa é demasiadamente abominável para ser contemplada.

Assim, em sua “redenção” da história, Tarantino emprega todo o seu domínio da ficção e os “detalhes irrelevantes” do seu mundo fictício para criar situações tensas, divertidas, emocionantes e, às vezes, explicitamente poéticas. Além disso, é um filme que trabalha com vários núcleos: há inúmeras camadas narrativas no enredo, e é notável a competência com que todas elas foram elaboradas. Mesmo as personagens menores (como Marvin Schwarz, Pussycat, Tex, Trudi, Randy, Squeaky, Stacy, George Spahn, etc.) são presenças vivas que permanecem na memória do espectador.

O conjunto todo resulta em um dos mais belos filmes de um diretor geralmente superestimado por suas realizações menos maduras. Era uma vez em… Hollywood é um dos grandes filmes da Hollywood pós anos 2000. Como nos mostrou Bentley Hart, transformada pela ficção irrefutável, a “rua do céu” da “cidade dos anjos” pode ser o paraíso que se desejar, pois a história só é verossímil na medida em que pode ser articulada pela expressão de suas possibilidades. Afinal, sem a imaginação a verdade se torna inconcebível.